Existe uma diferença fundamental entre tratar varizes "no olho" — baseando-se apenas no que está visível — e tratar com base em um mapeamento completo do sistema venoso. O doppler duplex é o que transforma o segundo cenário em realidade.
Sem o exame, o cirurgião vê apenas a ponta do iceberg. Varizes visíveis são, na maioria dos casos, consequência de refluxo em veias profundas ou em junções que não estão à vista. Tratar só o que aparece sem identificar a origem do refluxo é a principal razão de recidiva precoce.
O que o mapeamento duplex avalia
O exame combina duas informações em tempo real:
- Ultrassom em modo B (imagem) — mostra a anatomia dos vasos: calibre, parede, presença de trombos ou dilatações aneurismáticas
- Doppler colorido e espectral — analisa o fluxo sanguíneo: direção, velocidade, presença de refluxo (fluxo retrógrado quando as válvulas falham)
No contexto venoso, o exame mapeia:
- A competência da junção safeno-femoral (groin) e safeno-poplítea
- O calibre e a extensão da insuficiência das safenas magna e parva
- Veias perfurantes incompetentes (conexões entre sistemas superficial e profundo)
- A perviedade do sistema venoso profundo (descarta TVP)
- Varizes de origem pélvica
O ponto de refluxo determina a técnica. Uma varize alimentada por incompetência da safena magna exige tratamento da safena (EVLA, radiofrequência ou ligadura). A mesma varize alimentada por veia perfurante incompetente sem insuficiência de safena tem outro planejamento completamente diferente.
Como é feito o exame
O mapeamento duplex venoso é feito com o paciente de pé — posição que aumenta a pressão venosa hidrostática e facilita a identificação de refluxo. O examinador aplica o transdutor em posições padronizadas ao longo das pernas e pede manobras de compressão da panturrilha para provocar fluxo e verificar a competência valvar.
Um mapeamento completo bilateral leva entre 30–45 minutos. Ao final, o cirurgião tem um "mapa" venoso que orienta cada passo do tratamento.
No meu consultório, realizo o mapeamento duplex na própria consulta — o que elimina a espera entre o exame diagnóstico e o planejamento terapêutico. Numa única visita, você sai com diagnóstico e plano de tratamento definidos.
Doppler arterial: outro universo
No contexto arterial, o duplex tem aplicações distintas:
- Avaliação da carótida para risco de AVC (detecta placas e estenoses)
- Diagnóstico de doença arterial periférica nas pernas
- Acompanhamento de aneurismas de aorta abdominal
- Vigilância de pontes arteriais e stents após revascularização
- Avaliação de acessos para hemodiálise
Quando pedir o doppler
| Situação clínica | Tipo de doppler | Urgência |
|---|---|---|
| Varizes para tratamento | Mapeamento duplex venoso | Eletiva, antes do tratamento |
| Suspeita de TVP | Duplex venoso com compressão | Urgente — mesmo dia |
| Pernas pesadas / inchaço crônico | Duplex venoso | Breve (1–2 semanas) |
| Claudicação (dor ao caminhar) | ITB + duplex arterial | Breve |
| Ferida que não cicatriza | Duplex arterial + ITB | Urgente |
| Sopro carotídeo ou AIT | Duplex de carótidas | Urgente |
| Aorta abdominal (risco AAA) | Duplex aorta | Rastreamento anual (fumantes > 65 anos) |
Doppler vs. outros exames de imagem
O doppler é o exame de primeira linha em quase todas as situações vasculares porque é não invasivo, sem radiação, disponível, acessível e pode ser feito no consultório. Seus limites estão em situações onde o ultrassom não penetra bem (obesidade, gases intestinais para aorta) ou quando é necessário mapeamento anatômico detalhado para planejamento cirúrgico complexo — nesses casos, a angiotomografia ou arteriografia digital são os complementos adequados.
Parâmetros técnicos relevantes
No mapeamento venoso, o refluxo patológico é definido como fluxo retrógrado com duração > 0,5 segundos no sistema superficial (safenas) e > 1 segundo no sistema profundo (veia femoral, poplítea) após manobra de Valsalva ou compressão-descompressão da panturrilha. O calibre da veia safena magna é medido 3 cm abaixo da junção safeno-femoral — valores > 6 mm em posição ortostática indicam insuficiência significativa e geralmente implicam tratamento do tronco safênico além das tributárias.