O diabetes é hoje a principal causa de amputações não traumáticas no Brasil. Mas amputação, em grande parte dos casos, não é inevitável — é o resultado de uma cascata de eventos que, quando identificada cedo e tratada corretamente, pode ser interrompida.
O pé diabético não é uma doença única: é a soma de três componentes que se potencializam. Entender cada um é o primeiro passo para a prevenção.
Os três pilares do pé diabético
1. Neuropatia periférica
O diabetes danifica os nervos periféricos ao longo dos anos. A consequência mais perigosa é a perda da sensibilidade protetora — o paciente não sente dor quando pisa num objeto, quando o calçado machuca ou quando uma ferida se instala. Sem dor, não há alerta. Feridas pequenas crescem sem que o paciente perceba.
2. Isquemia arterial periférica
O diabetes acelera a aterosclerose, especialmente nas artérias das pernas — tibiais, peroneiras, artéria dorsal do pé. Com fluxo reduzido, qualquer ferida tem dificuldade de cicatrizar. O tecido privado de oxigênio e nutrientes não regenera. A infecção, sem defesa local, se aprofunda.
3. Vulnerabilidade à infecção
A hiperglicemia crônica compromete a função dos neutrófilos e macrófagos — as principais células de defesa do organismo. Infecções que seriam superficiais em um paciente não diabético podem progredir rapidamente para fasciite necrotizante ou osteomielite.
Todo diabético com ferida no pé que não cicatrizou em 2 semanas deve ser avaliado por um cirurgião vascular. Não aguarde a consulta com o clínico geral ou endocrinologista — o tempo conta.
O papel do cirurgião vascular
O cirurgião vascular é o especialista treinado para avaliar e tratar a isquemia arterial — o componente que mais impacta o prognóstico da ferida. Sem fluxo adequado, nenhum curativo, antibiótico ou desbridamento cirúrgico vai funcionar.
A avaliação vascular inclui:
- Índice tornozelo-braquial (ITB) — medida simples e objetiva da pressão arterial no tornozelo em relação ao braço; valores < 0,9 indicam doença arterial periférica
- Pressão do hálux e TcPO₂ — em diabéticos, a calcificação arterial pode falsear o ITB; a pressão do hálux e a oximetria transcutânea são mais precisas para prever cicatrização
- Angiotomografia ou arteriografia — quando há indicação de revascularização, o mapeamento anatômico das artérias define a estratégia cirúrgica
Quando revascularizar
A revascularização — cirúrgica (pontes arteriais) ou endovascular (angioplastia com ou sem stent) — é indicada quando o fluxo está comprometido a ponto de impedir a cicatrização da ferida. O objetivo não é apenas salvar o pé, mas preservar a qualidade de vida e a independência do paciente.
A escolha entre cirurgia aberta e técnica endovascular depende da anatomia das lesões arteriais, do estado clínico do paciente e da disponibilidade de veia safena para ponte. Em centros com experiência, os dois métodos são complementares — não excludentes.
| Situação clínica | Conduta vascular | Urgência |
|---|---|---|
| Ferida superficial, ITB normal | Acompanhamento, otimização metabólica | Eletiva |
| Ferida + ITB 0,5–0,9 sem isquemia crítica | Avaliação vascular + cuidado local | Breve (1–2 sem) |
| Ferida + dor em repouso ou ITB < 0,4 | Avaliação para revascularização | Urgente (dias) |
| Infecção profunda + isquemia | Antibioticoterapia + revascularização precoce | Internação imediata |
| Gangrena úmida ou fasciite | Desbridamento / amputação + revascularização | Emergência cirúrgica |
Prevenção: o que o diabético pode fazer
A maioria das complicações graves do pé diabético é prevenível com medidas simples mantidas de forma consistente:
- Inspecionar os pés diariamente — inclusive entre os dedos e na planta — de preferência com auxílio de um espelho ou familiar
- Usar calçados adequados: fechados, com biqueira larga, sem costuras internas que machuquem
- Nunca andar descalço, mesmo em casa
- Controlar a glicemia: HbA1c < 7% reduz significativamente o risco de neuropatia e doença arterial
- Não fumar: o tabagismo é o maior fator de risco modificável para doença arterial periférica
- Hidratação da pele seca, sem aplicar cremes entre os dedos (favorece fungos)
- Consulta vascular anual para rastreamento de DAP, mesmo sem sintomas
Dado clínico
Dados do DATASUS mostram que o Brasil realiza cerca de 70.000 amputações por ano relacionadas ao diabetes. Estudos internacionais demonstram que programas multidisciplinares de pé diabético — com cirurgião vascular, endocrinologista, infectologista e enfermeira especializada — reduzem a taxa de amputação major em 49–85%. A revascularização precoce, quando tecnicamente possível, está associada a taxas de salvamento de membro de 70–90% em 2 anos.