Se você chegou aqui preocupado com uma dor na perna, um inchaço que apareceu do nada ou alguém da família que foi diagnosticado com trombose — está no lugar certo. Vou explicar o que acontece numa trombose venosa profunda e quais sinais você precisa conhecer.
A trombose venosa profunda (TVP) ocorre quando um coágulo se forma dentro de uma veia profunda — geralmente nas pernas. Em até 50% dos casos ela é completamente silenciosa. Quando dá sinais, eles seguem um padrão reconhecível. O problema real não é o coágulo em si: é a possibilidade de ele migrar para os pulmões, causando um tromboembolismo pulmonar (TEP) — uma emergência séria.
Se você suspeitar de TVP, procure um pronto-socorro no mesmo dia. Não espere a consulta de rotina. O diagnóstico exige ultrassom doppler e, se confirmado, a anticoagulação deve começar imediatamente.
Os 7 sinais principais
A combinação de dor, inchaço e calor é o padrão clássico — mas o sinal mais decisivo é a assimetria. Inchaço bilateral costuma ter outras causas; o achado unilateral, numa só perna, é o que levanta a suspeita.
1. Dor ou cãibra persistente na panturrilha
Diferente da cãibra muscular comum, a dor da TVP é constante — não alivia com alongamento e piora quando você puxa o pé para cima (isso é o sinal de Homans). Costuma aparecer de forma súbita, sem trauma ou esforço prévio.
2. Inchaço assimétrico
Inchaço em uma perna só, especialmente se acompanhado de sensação de peso, é um sinal importante. Você vai notar a diferença comparando as duas panturrilhas — uma diferença de 3 cm ou mais já entra no escore de risco.
3. Pele avermelhada ou arroxeada
A inflamação em volta do coágulo causa eritema — uma vermelhidão que acompanha o trajeto da veia. Em casos mais graves de obstrução severa, a perna pode ficar arroxeada ou cianótica (phlegmasia cerulea dolens — emergência vascular).
4. Calor local
A pele sobre a área comprometida fica mais quente que o restante da perna. Essa diferença de temperatura é fácil de perceber ao toque e é um dos primeiros achados no exame físico.
5. Veias superficiais dilatadas
Quando uma veia profunda está obstruída, o sangue busca saída pelo sistema superficial. Veias pequenas ficam mais visíveis, especialmente na face anterior da coxa e ao redor do joelho.
6. Dificuldade para caminhar
A combinação de dor, inchaço e tensão no compartimento muscular pode tornar o caminhar difícil ou impossível. Esse sinal geralmente indica um comprometimento mais extenso.
7. Falta de ar súbita — sinal de alerta para TEP
Falta de ar sem causa aparente, dor no peito que piora ao respirar, ou tosse com sangue podem indicar que o coágulo migrou para o pulmão. Nesse caso, pronto-socorro imediatamente — sem esperar.
Quem tem mais risco
A TVP não escolhe apenas pessoas idosas ou acamadas. Há fatores que todo mundo deveria conhecer — especialmente porque dois deles são muito comuns e pouco levados a sério:
- Viagens longas (avião, ônibus) por mais de 4 horas
- Cirurgias de médio e grande porte nas últimas 4–6 semanas
- Uso de contraceptivos orais combinados, especialmente em mulheres fumantes
- Gestação e puerpério (até 6 semanas pós-parto)
- Imobilização prolongada por fratura, doença ou internação
- Histórico pessoal ou familiar de trombose
- Trombofilias hereditárias (fator V de Leiden, mutação da protrombina)
- Neoplasias ativas
O que acontece por dentro
Quando uma veia profunda fica bloqueada por um coágulo, o sangue não consegue voltar normalmente para o coração. A pressão aumenta, a parede da veia inflama e o líquido começa a vazar para o tecido ao redor — causando o inchaço. Num segundo momento, pedaços do coágulo podem se soltar e seguir pela corrente sanguínea até os pulmões.
| Escore de Wells | Critério | Pontos |
|---|---|---|
| Câncer ativo | Em tratamento ou nos últimos 6 meses | +1 |
| Paralisia ou imobilização | Membro inferior | +1 |
| Acamado > 3 dias / cirurgia < 12 semanas | +1 | |
| Dor no trajeto venoso profundo | Panturrilha, coxa | +1 |
| Inchaço em toda a perna | +1 | |
| Assimetria de panturrilha > 3 cm | +1 | |
| Edema depressível | Maior no lado sintomático | +1 |
| Veias colaterais superficiais | Não varicosas | +1 |
| TVP prévia | Documentada | +1 |
| Diagnóstico alternativo mais provável | Ex.: cisto de Baker, celulite | −2 |
Escore ≥ 2: alta probabilidade — o ultrassom doppler é mandatório mesmo com D-dímero normal. Escore < 2 com D-dímero negativo: TVP improvável.
Como o diagnóstico é feito
O exame padrão é o ultrassom com compressão venosa — o doppler duplex. O princípio é simples: uma veia normal colapsa quando o transdutor comprime a pele sobre ela. Uma veia com trombo dentro não colapsa. É isso. Em menos de 30 minutos você tem o diagnóstico.
Base técnica
O diagnóstico definitivo de TVP é feito pelo ultrassom com compressão venosa (Doppler duplex), com sensibilidade de 94–98% para TVP proximal e 73–93% para TVP distal isolada. O D-dímero tem alto valor preditivo negativo (VPN > 95%) em pacientes de baixa probabilidade clínica — mas não serve para confirmar o diagnóstico quando positivo, sendo apenas um marcador inespecífico de ativação da coagulação.
O que fazer diante de suspeita
Não tente tratar em casa enquanto aguarda avaliação — repouso, elevação e anti-inflamatórios não resolvem um trombo venoso. A confirmação precisa ser rápida, e se a TVP for confirmada, a anticoagulação começa no mesmo dia: heparina de baixo peso molecular, rivaroxabana, apixabana ou fondaparinux, dependendo do perfil de cada paciente.
O acompanhamento ambulatorial depois define a duração da anticoagulação (3 meses a indefinidamente), a investigação de trombofilia e o uso de meias de compressão para prevenir a síndrome pós-trombótica.